Resumo:

Prever e modificar o comportamento humano, controlar mercados e influenciar escolhas políticas de países inteiros: essas são algumas das principais características do que vem sendo chamado de capitalismo de vigilância. Há muitos outros nomes para as mudanças em andamento nesse modo de produção em função das tecnologias da informação e suas conexões com processos extrativos e financeiros de geração de valor. O complexo conjunto de fenômenos associados também vem sendo interpretado a partir do conceito de colonialismo de dados. O presente projeto se coloca o duplo problema de pesquisa:  que elementos e personagens conceituais do Candomblé Nagô (ketu), e das cosmotécnicas  associadas, nos ajudam a recontextualizar e interpretar as tecnologias digitais, seus princípios e consequências?  Como tais referências podem nutrir uma pedagogia não escolar para reagir a tal cenário, em sintonia com a tradição latino-americana de insurgência contra-colonial? A investigação, de caráter teórico, é conduzida metodologicamente por Revisão Bibiográfica, Etnografia e Entrevistas Narrativas. A pesquisa expressa uma maneira de inquerir, aprender e ensinar, escrever e refletir que coloca no centro epistemologias não ocidentais, realçando a importância dos afetos, dos mistérios, dos espectros, da Natureza, do corpo, dos encantados e, em específico, do Axé de Ogum, o Orixá das tecnologias, do impulso civilizacional e da guerra. 

Palavras-chave:

Neocolonialismo; Cosmotécnicas; Ogum; Pedagogia narrativa; Dados

Introdução / Contextualização:

As formas contemporâneas de poder e opressão vêm sendo progressivamente guiadas por um novo modelo de produção de conhecimento baseado na extração e processamento de dados. Entre as consequências estão o aumento da concentração de capital, a sofisticação dos modelos de vigilância e o aprofundamento dos processos de colonização. Corpos negros em particular, e não-brancos em geral, experimentam de maneiras específicas os efeitos desse mais recente regime de conhecimento – que requer o investimento crescente em ciência de dados, capacidade computacional, e a extração contínua e ampla de uma grande quantidade de dados para gerar previsões que alimentam tomadas de decisão nos mais variados temas: saúde, comércio, educação, administração pública, finanças, trabalho, transporte e segurança pública.

Estados, corporações tecnológicas e centros de pesquisa localizados principalmente no Norte Global fornecem o suporte infraestrutural e apoio político necessários a essa racionalidade orientada por dados. Ao mesmo tempo, essas transformações correspondem a uma inflexão do modelo de produção capitalista, em função das tecnologias da informação e comunicação e de suas conexões com processos extrativos e financeiros de produção.

Não por acaso, o modelo econômico que paulatinamente se consolida, baseado na despossessão de dados pessoais e na captura da vida também modula agendas de pesquisa. De fato, há muitos conceitos que tratam de aspectos desse processo – colonialismo de dados (Couldry & Mejias, 2019), capitalismo de vigilância (Lyon, 2001; Zuboff, 2020); governamentalidade algorítmica (Berns & Rouvroy, 2018); capitalismo de plataforma,  economia psíquica dos algorítmos (Bruno et al, 2019), entre outros.

A maior parte dos percursos analíticos que consolidaram esses termos tem em comum o fato de contemplarem prioritariamente a articulação entre economia, tecnologias e comportamento. A extensa bibliografia já construída nos últimos anos também tem em comum outro elemento: seus principais conceitos foram majoritariamente desenvolvidas no Norte Global.

Termos como “influencers”, “fake news”, “algoritmization”, “datification” passaram a compor o vocabulário corrente, necessário (e esperado) das reflexões produzidas por pensadores e pensadoras da América Latina. Tais referências foram capazes de mapear um novo modelo de produção de capital e avançaram a partir das contribuições de diversas áreas de conhecimento: comunicação, sociologia, economia, antropologia, expressando, de fato, múltiplas portas de diálogos entre pesquisadorxs e a construção de abordagens que podem se complementar.

O projeto de pesquisa aqui colocado considera, entretanto, que a mera importação dessas referências pode reeditar e aprofundar o “modelo de elaboração intelectual do processo de modernidade” que “produziu uma perspectiva de conhecimento e um modo de produzir conhecimento que demonstram um caráter do padrão mundial de poder”: o eurocentrismo (Quijano, 2005).

O conceito de “pensamento abissal” (Sousa Santos, 2007) expressa bem isso:  corresponde aos já conhecidos apagamentos de saberes que aparentemente não podem contribuir ou não podem conviver nos espaços reconhecidos de produção de conhecimento para tratar de problemas contemporâneos. Refiro-me especificamente às epistemologias associadas ao Candomblé e suas cosmotécnicas.

A hipótese dessa pesquisa é que a modulação de formas de ser, pensar e sentir provenientes de um regime centrado em dados (capitalismo de plataforma, capitalismo de vigilância, capitalismo algorítmico) estabelece uma agenda de imposição civilizacional. Diante dessa inflexão, emerge a necessidade de se recorrer a referências civilizacionais que já desempenharam e desempenham formas de interpretação, re-elaboração e respostas às dinâmicas coloniais. É assim que se colocam questões desse tipo: qual o entendimento que as referências afro-diaspóricas, e suas cosmotécnicas associadas,  permitem formular da racionalidade orientada por dados e suas manifestações? Qual a importância dessa questão e as consequências das eventuais respostas? Que respostas teórico-pedagógicas tais linhas acionam?

Uma vez que boa parte da atual bibliografia concernente à governamentalidade e racionalidade algorítmica pode ser caracterizada, no geral, como abordagens sobre as dimensões materiais das mudanças no sistema capitalista, os mapas que tais abordagens desenham sugerem impossibilidades, situações sem saída, esgotamento e falta de perspectivas.

As análises desenvolvidas a partir da matriz do Norte Global expressam o próprio desencanto que se abateu sobre as ciências sociais, ao não vislumbrar alternativas para as sociabilidades dominadas pelo capitalismo de vigilância e suas dimensões algorítmicas; mas também ao não considerar  tais processos a partir de outras perspectivas.

É nesse sentido que a presente pesquisa valoriza a presença espectral de entidades do Candomblé Nagô como intercessoras de uma dupla estratégia metodológica: por um lado, personagens conceituais são acionados como operadores analíticos de um modelo civilizatório que subordina a vida a lógicas maquínicas. O “Tempo Ogúnico” do título não é um termo que se refere ao contexto contemporâneo. Derivado do nome do Orixá da Guerra, Ogum, o termo se refere a um emblema civilizacional com o qual se analisa o imaginário sócio-técnico hegemônico e as consequências da exacerbação de alguns de seus elementos.

A outra ponta da estratégia se refere à busca por respostas pedagógicas ao desencantamento incorporado pela agenda neocolonial baseada na extração de dados e na governamentalidade algorítmica. A problemática colonial recolocada nos demanda uma resposta educativa. Seu desdobramento na forma de um capitalismo de vigilância e de uma economia psíquica de algorítimos não pode esconder o caráter político de um projeto que continua a apostar suas fichas na escassez, na produção de morticínio, na simplificação da vida para que ela possa ser contida e não contenha.

Objetivos:

O Objetivo Principal dessa pesquisa é desenvolver uma análise do avanço do regime de conhecimento (epistemologia) centrado em dados, a partir de personagens conceituais, de suas narrativas e das cosmotécnicas associadas ao Candomblé Nagô. Alguns desses personagens conceituais são a Ialorixá, o Babalorixá, o griot, o bamba, a(o) jongueira(o), todos os Orixás (Exu, Oxalá, Obatalá, Ogum, Oxóssi, Oxum, Xangô, Ossaín, Yemanjá, entre outros.), entre muitos outros.

O formato atual do capitalismo atualiza as centenárias formas de extração de valor em geral, mas, especificamente em relação às pessoas negras das diásporas, atualiza também as formas de exclusão, marginalização e silenciamento. Renova ainda processos de modulação do ser, do pensar e das formas sentir dessas populações.

Como já mencionado, esse processo é encarado como uma virada civilizacional e é tendo isso em vista que se procura desenvolver uma interpretação a partir de (outras) bases civilizacionais também. Há dois aspectos que precisam ser ressaltados em investigar dessa forma os processos neo-coloniais que articulam neoliberalismo, TICs e financeirização.

O primeiro desses aspectos se refere às notórias dificuldades para formular alternativas teóricas e políticas à primazia total do mercado, cuja defesa mais coerente foi formulada pelo neoliberalismo, como observado por Edgardo Lander (2000).

Disso resultam os relatos ou análises de cenários que sugerem a falta de alternativas ao devir histórico que agora se apresenta – não são raros os usos inapropriados do termo ‘encruzilhada’ para comunicar o sentido das alternativas infernais (Pignarre & Stengers, 2011) que nos são, muita vezes, oferecidas. Naquele emblemático texto, Edgardo Lander observava que “a busca de alternativas à conformação profundamente excludente e desigual do mundo moderno exige um esforço de desconstrução do caráter universal e natural da sociedade capitalista-liberal”, (Lander, 2000, p. 9).

Isso implica, como observava o autor, a necessidade de questionar as pretensões de objetividade e neutralidade dos principais instrumentos de naturalização e legitimação dessa ordem social, que na perspectiva de Lander, corresponde ao conjunto de saberes que conhecemos globalmente como ciências sociais – que justificam e explicam o mundo Moderno.

Significa também que as soluções ao arranjo sociotécnico e civilizacional em construção precisam considerar elementos fora do campo da técnica e da tecnologia. Mais ainda: uma compreensão comprometida com outras experiências tecnológicas precisa levar a sério outros imaginários tecnológicos – outras cosmotécnicas. Isso signfica rearticular a questão da tecnologia e contestar os seus pressupostos ontológios e epistemológicos (das redes sociais à inteligência artificial), o que implica em ir além da crítica ao eurocentrismo e do colonialimo do poder.

Em sintonia com diversas abordagens que procuram recolocar a relação entre humanos, tecnologias e natureza a partir de matrizes epistemológicas não ocidentais, o principal objetivo dessa pesquisa se filia, portanto, ao que a professora Thamara de Oliveira Rodrigues chama de humanidads encantadas – uma perspectiva que tem mostrado a necessidade de uma forma de pesquisar, escrever, pensar, inquerir a realidade por meio do acolhimento das filosofias, das expressões culturais, de saberes não ocidentais, ontologias não ocidentais, experiências estéticas, demandas existenciais mas também por meio dos sentidos, do corpo, dos afetos, do mistério, da dúvida, da epifania, da imaginação, da ficção,  da materialidade dos espectros e dos antepassados.  É nesse sentido que se pode afirmar que essa é uma investigação poética – no sentido adotado para esse termo por Édouard Glissant.

Trata-se de uma proposta que procura confrontar o conceito de tecnologia em si e reagir à crença generalizada de que já não é possível imaginar outras formas de relação com a tecnologia e construir outro futuro. Essa perspectiva desencantada, muito frequentemente, se apresenta nas análises hegemônicas que tratam do conjunto de problemas aqui colocados. 

Assim, o segundo dos aspectos da investigação acima mencionado se refere a uma busca por construir outras poéticas de relação no mundo. Refere-se à busca por inventar, produzir, criar caminhos para tornar as ciências entusiasmadas – estar entusiasmado significa estar com o corpo cheio de deuses, estar incorporado da capacidade de criação.

É essa orientação que nos permite propor o seguinte Objetivo Associado ao Objetivo Principal: sugerir modelos pedagógicos como respostas decoloniais aos efeitos das formas contemporâneas de poder e opressão baseadas em uma racionalidade que depende da extração de dados.

Como nutrir tais respostas com referenciais afro-diaspóricos, em particular advindos da tradição do Candomblé Nagô? Quais táticas e estratégias tecnopolíticas as pedagogias assim imaginadas podem conter? Quais elementos psicológicos podem ser usados para tanto? Quais os ambientes mais adequados para a abertura desses caminhos de aprendizados?

Esse conjunto de questões aciona alguns elementos a serem considerados:

a) Acionar o campo e personagens do Candomblé como referências civilizacionais implica centralmente em acessar narrativas sobre seres míticos, extraindo dessas histórias posicionamentos epistemológicos;

b) Essa é uma operação que procura se reapropriar das tecnologias por meio de uma cosmotécnica particular (afrodiaspórica) para realizar futuros tecnológicos diferentes;

c) O aprendizado que se pretende extrair dessa experiência poderá criar alternativas a um modelo civilizacional que naturaliza a querra, que flerta com a singularidade e com os sonhos transumanistas.

d) O que significa dizer que as pedagogias que se procura tomam a forma de uma guerrilha epistêmica e ontológica, uma destruição amorosa das expectativas maquínicas, porque toda política contra-colonial, em que as humanidades encantadas se incluem, é uma política de vida.

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