O que nos ensinam os modos somáticos de atenção

O enorme e variado acervo dos estudos e das análises das implicações da governamentalidade algorítmica não tem dado a devida atenção ao que pode o corpo – como talvez repetisse Espinoza. Tem sido meu interesse explorar os modos somáticos de atenção para refletir sobre essas coisas.

Ora, sabemos bem como o modelo atual da governamentalidade algorítmica aposta em um regime de visibilidade, em um modelo de produção de conhecimento e na formação/modulação de subjetividades.

Nesse sentido é bem interessante relembrar o que Maurizio Lazzarato já escreveu sobre o assunto: ele parte da ideia de que a subjetividade não é dada ou natural, mas o substrato que emerge em meio a dispositivos técnicos, sociais e semióticos. A grande inspiração de Lazzarato é, como em muitos autores a autoras que tratam desse cruzamento entre governamentalidade e subjetividade, o trabalho de Deleuze e Guattari: para o italiano, o capitalismo contemporâneo opera diretamente sobre as formas de sentir, perceber e pensar, isto é, sobre a própria constituição do sujeito.

Assim, ainda que a subjetividade seja um campo de forças e de invenção, ele é atravessado tanto por mecanismos de controle quanto por potências de criação. Mas nem uma palavra sobre o corpo que produz e vive essas subjetividades.

Nesse contexto, o que significa explorar os modos somáticos de atenção? Significa dar atenção e considerar práticas e os modos de existir e cuidar do mundo natural, social, afetivo e psíquico por meio de estratégias de continuidade diante de décadas de apagamento e da modulação de comportamentos – que só tendem a se complexificar.

Várias coisas aqui: práticas e modos de existir e de cuidar; o mundo natural, o social, afetivo e o psíquico; estratégias de continuidade.

Essas coisas são colocadas em movimento contiguamente em determinadas criações estéticas como o samba de roda, a capoeira, os benzimentos, os ebós e seus fundamentos, nas comunidades de matriz africana. Essas práticas são também espaços políticos de resistência em que o corpo se faz território (corpo território). Mas acho que é nesse ponto que é preciso dar o pulo do gato.

A margem como ponto nevrálgico dessa vibração (aqui lembremos de bell hooks e Grada Kilomba) é um território palco em que o corpo território também executa políticas de re-existência e reinvenção. Refiro-me à produção ativa de identidades (individuais e coletivas) mas também a processos de individuação.

Os modos somáticos de atenção são expressões do afropresentismo de Neema Githere, de dinâmicas que instigam outras individuações não algorítmicas porque acontecem num aqui agora em que os elementos mencionados acima (dar atenção e considerar práticas e os modos de existir e cuidar do mundo natural, social, afetivo e psíquico por meio de estratégias de continuidade) deslocam a vida para outro lugar e tempo.

Não se trata somente daquilo que a semiótica da cultura sistematizada por Iuri Lottman permite ver: as cosmopolíticas de Sankofa como espaços semióticos de afirmação identitária. É algo mais além, mais perigoso também.

Estou então tentando reconhecer no corpo e na festa, nas celebrações, nos encontros conduzidos por esses deslocamentos, uma espécie de reserva individuante que permite um refazimento coletivo, uma fonte somática de compreensão e significação das relações, mas também do tempo, das relações no tempo e das relações no tempo e no território. A ver.

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