
12, abril, 2026
Acho que o que mais me impactou no filme foi perceber como foi feita a articulação entre a estética da política racial segregacionista nas Américas, no ciclo pós-colonial histórico, e o que eu gostaria de chamar de vampirismo branco. Aquela política tinha suas formas de expressão (a benção Ranciére), que se podia ver na confirmação dos territórios e de seus usos, nas relações comerciais, no sistema jurídico e suas aplicações, nas distribuições de oportunidades de formação técnico-profissional, etc, etc.
Os episódios ocorrem em 1932, no Missisipi, um momento de crise econômica, e desindustrialização por causa da quebra da bolsa, dois anos antes. Essa crise inclusive arrasou a indústria do algodão, levou à falência de agricultores e a venda, por parte deles, de ativos rurais: terras e propriedades como o armazém da madeireira que é comprado pelos gêmeos para nele instalar uma casa de show de blues com jogatina.
Ainda assim o que se vê na produção é uma agitação eufórica na cidade, a presença de comunicação por tele-fax, linhas de transmissão, automóveis circulando e trens a vapor, gente viajando.

12, Abril, 2026
Pelo menos em relação ao calendário dos terreiros, o ano começa agora em Cachoeira e em todo o Recôncavo e na Bahia. A discussão sobre a relação entre a Quaresma e a ritualidade anual do Candomblé, mas também da Umbanda, não é nova. No geral, há duas posições em relação a isso. De um lado, há que afirme de maneira definitiva que os Orixás e suas comunidades no Ayê (a terra, os terreiros) não devem se curvar aos santos católicos nem a sua agenda ao longo dos 365 dias.
Encontra-se também, em fóruns, blogs, sites de tamanhos variados e em inúmeros perfis nas redes sociais, as afirmações de que cada casa (terreiro) estabelece sua própria relação, definida pelos Orixás da casa. E nisso, variam, os hábitos: há terreiros que fecham e não tem atividades (nem internas), nem festas públicas, nem nada; há aqueles que continuam com atividades de consultas ou trabalhos internos e ainda os que não alteram em nada suas atividades.
Em Cachoeira, como muitas outras coisas, a maneira pela qual a ocupação do território se deu a partir do Século XVI, parece ter moldado de outra maneira várias dessas questões. Em toda a Bahia, quase todos os terreiros mais tradicionais respeitam integralmente o período da quaresma. Isso significa que durante os tais 40 dias não há festejos, presentes a Orixás, ebós ou consultas.

03, Outubro, 2025
Faz seis meses que mudei da cidade do Recife, onde havia feito morada a 38 anos, para essa temporada na cidade de Cachoeira, Recôncavo Baiano – cidade de feitiços e feiticeiros.
Embora esteja com esse perfil aqui ativo a algumas semanas, ainda não havia me mobilizado a escrever e não sei bem a razão. Mas sei bem o que me fez escrever agora. Depois desse tempo, pudemos ver o que acontece no meio de uma guerra entre facções do tráfico. A cidade, de barulhenta e viva e quente se fechou sobre si mesmo desde as 17 horas.
A alguns dias o toque de recolher informal dá o tom ao final dos dias – na sexta, o céu vermelho de final de tarde na Primavera do Recôncavo é motivo mais que suficiente para se ir “comer água”, como diz o baiano. O cheiro de azeite de dendê corta a cidade toda desde as 16h, e os bares da margem esquerda começam a receber as testemunhas das águas do rio Paraguaçu fluindo.
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12, Fevereiro, 2026
Todo ano eles fazem tudo sempre igual. Acordam num certo dia de manhã e correm intranquilos, ver a saúde dos alumbramentos do ano passado. Geralmente, as fantasias estão guardadas num lugar alto ou baixo, depende; em caixas, sacos, malas, alojadas em vãos da memória e do desejo, bem batendo nos corações futuristas, e esperando novos encantos que chegam semana a semana, antes do Carnaval.
Olhe a caixinha de fantasias de uma pessoa e você conhecerá melhor essa pessoa – e observo isso para além da noção muito intuída de que as fantasias comunicam exatamente o que a pessoa é, ou vem sendo. Falo num sentido mais prático e talvez poético, toda uma antropologia da meia rasgada, da calça manchada de cerveja, da ausência do pé direito de um sapato da marca Rainha, que não é meu, entre os ítens guardados.

Volta e meia, na volta inteira que o ano dá, ressurge esse vídeo acima, pertinho dos dos festejos da carne. Dessa vez ele me pegou mais e diferente, porque me remeteu ao que o professor Douglas Barros escreveu sobre a obra de Antônio Bispo. Coincidência ou não, o artigo do professor, publicado no prestigioso blog da editora Boi Tempo, circula às vésperas de mais uma ofegante epidemia que se chama Carnaval.
Já o texto que vem com o vídeo foi publicado pelo professor Luis Antônio Simas em seu antigo Tuíter, a uns anos. Nele, o historiador e escritor defende a ideia de que as Escolas de samba são uma das muitas instituições comunitárias das populações negras que fazem parte de uma engenharia de sobrevivência material, afetiva e espiritual chamada Carnaval. Poderíamos estender essas instituições aos blocos, troças, clubes, aos maracatus de baque virado e de baque solto, aos fandangos, afoxés, a todo semicírculo em torno de uma alegria e sua quentura, os ursos (brancos ou pretos), cabocolinhos, e uma lista interminável de jeitos e eitos de manter a vida.

